domingo, 31 de janeiro de 2010

Engodo Cultural

Abaixo, artigo de minha autoria que critica o descaso do governo Hélio de Oliveira com a cultura de Campinas, publicado neste domingo no Correio Popular.

Opinião
Engodo cultural


Na segunda metade da década de 1970, sob a direção de Flávio Rangel e com Regina Duarte no papel principal, Campinas assistiu aquele que foi talvez o mais ousado trabalho teatral da atriz: O Santo Inquérito, peça de Dias Gomes. A atriz, nascida em Franca, mas criada em Campinas, onde deu seus primeiros passos na arte, decidiu realizar uma espécie de pré-estreia na cidade em homenagem aos laços que tinha por aqui. O espetáculo, uma superprodução, foi realizado no teatro interno do Centro de Convivência. O diretor — um dos mais consagrados e exigentes do Brasil — em visita técnica ao teatro perguntou ao iluminador da Prefeitura quantos holofotes havia disponíveis. Resposta: 110. Flávio Rangel não titubeou: “Quero todos”. A pré-estréia foi sensacional, com a casa cheia, a peça aplaudida de pé e o público saindo orgulhoso por assistir, antes de São Paulo, onde haveria a estreia, um espetáculo daquele porte e qualidade.

Essa história me foi contada por um jornalista de Campinas que, à época, cobria a área de cultura. E me veio à lembrança com muita tristeza, pois é inevitável que se compare o que foi Campinas, em passado recente, com o que é hoje. De cidade que dividia com São Paulo e Rio as estreias e turnês das mais importantes peças teatrais, estamos relegados ao esquecimento, pois as poucas peças que se encorajam a se apresentar por aqui saem frustradas e cheias de críticas ao estado dos nossos teatros, aliás, do nosso único teatro municipal de porte, pois o outro — o Castro Mendes — que já abrigou até grandes óperas, sofre, há quase três anos, um lento processo de reformas cujo término já foi prometido várias vezes e, do mesmo modo, várias vezes adiado. E há ainda a Sala Carlos Gomes, local destinado ao culto à música lírica, que padece da mesma falta de estrutura oriunda do descaso com os equipamentos culturais.

A postura demagógica e de total falta de respeito com o público campineiro, infelizmente, não se restringe apenas aos teatros existentes. Em 2007 foi assinado um convênio com o Banco do Brasil, de R$ 27 milhões, para que se construísse um teatro de grande porte na Pedreira do Chapadão e outro no Taquaral. Tal iniciativa nem saiu do papel. E, pior: ou o dinheiro nem chegou a sair do banco (e com isso a cidade pode ter perdido uma grande oportunidade), ou saiu e desapareceu nos escaninhos obscuros de um orçamento que jamais se cumpre.

E é nesse quadro de calamidade na área cultural que o governo do doutor Hélio vem a público anunciar a construção de um sambódromo na cidade. Nada contra que Campinas tenha um local apropriado para que se faça o Carnaval de rua, mas num momento em que num teatro que já foi um dos melhores do Brasil, atores e público têm de conviver com goteiras, bolor, ratos, baratas, sujeiras, falta de equipamento de iluminação e cancelamento de espetáculos por falta de condições técnicas, é inacreditável que essa administração esteja direcionando verbas para construir um sambódromo.

E essa história de que a iniciativa privada vai ser parceira não passa de conversa mole para boi dormir. São raros os exemplos de participação ativa de empresários privados em parecerias com a Prefeitura na área cultural.

A caravela na Lagoa do Taquaral é outro exemplo gritante do descaso e de desconfiança sobre a lisura da conduta das autoridades: ali foi orçada uma reforma — que, diga-se, está longe de começar, e que iria custar o dobro do preço de uma nova caravela. Enquanto isso, tal qual um monumento à incompetência, a caravela agoniza aos olhos dos milhares de campineiros que usam o Parque Portugal para suas caminhadas e como área de lazer.

Portanto, temos certeza que o anúncio da construção do sambódromo não passa de mais um engodo, entre tantos que o governo municipal tem praticado nesses anos. Só que esse engodo vem agravado pelo fato de que não temos mais teatros municipais que sustentem com qualidade até pequenas produções. E, ao invés de cuidar do patrimônio existente, tentando levar Campinas de volta ao centro do cenário teatral nacional, para depois pensar nos enormes gastos que um sambódromo acarretaria, o governo inverte descaradamente um cronograma óbvio: anuncia uma grande obra que dificilmente sairá do papel e deixa nossos teatros entregues à própria sorte.

Artur Orsi é vereador e presidente do PSDB de Campinas